Excerpt for Sabará 18 by Carlos Gentil Vieira, available in its entirety at Smashwords

SABARÁ 18


by Carlos Gentil Vieira



Copyright 2012 Carlos Gentil Vieira


Smashwords Edition



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Esta é uma obra de ficção. Todos os personagens, diálogos e situações são frutos da imaginação do autor.


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“Porque onde estiver vosso tesouro, aí também estará vosso coração.” (Mateus, 6:21)


Inscrito no púlpito do Evangelho, Igreja do Carmo, em Sabará.

Obra do Mestre Antônio Francisco Lisboa, o “Aleijadinho”.



Chapter 1



O silêncio foi sepulcral. Eu fiquei quieto no meu canto, bem lá no fundo da sala de consistório como convém a um noviço, esperando alguém dizer alguma coisa.

O primeiro a falar, é claro, foi o padre-comissário. Ele olhou demoradamente a Mesa da Ordem, composta só por homens, alguns com as mãos calejadas do trabalho no garimpo ou na roça, e disse gravemente: “Precisamos saber como foi que desapareceu esta imagem de São José de Botas”. Quem havia comunicado aos irmãos esta estranha ocorrência foi o nosso tesoureiro, capitão Armindo Barbosa, homem temente a Deus e cioso de suas responsabilidades para com a Ordem do Carmo.

A imagem de São José de Botas, em si, não era assim coisa tão valiosa. Consta que era uma cópia de outra maior, existente em São José d'El Rey. Fora um presente da Ordem Terceira de lá para a nossa, quando conseguimos nos separar daquela de Ouro Preto e tivemos autorização para construir nossa própria capela.

O problema era o furto. Disse alguém ao meu lado que era bem capaz de ter ouro escondido dentro da imagem, como muita gente antiga fazia para proteger as riquezas ou fugir do quinto. Portanto, devia ser algo mais sério que estava deixando o nosso tesoureiro pálido e o padre-comissário de semblante carregado.

Os irmãos da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo do Sabará, criada oficialmente em 1761, eram quase todos brancos e homens de posses. Chamam-se aqui homens bons. Digo quase todos, porque alguns irmãos são mais de posses que brancos, na realidade.

Nós durante muito tempo usamos a Matriz de Nossa Senhora da Conceição como lugar de nossas devoções, por especial deferência da titular daquela Igreja, a Irmandade de Nossa Senhora do Amparo dos Homens Pardos do Sabará. Foi lá que frei José de Jesus Maria, visitador-geral e reformador da Ordem do Carmo, solenemente havia instalado a nossa Ordem Terceira.


Posto que os irmãos do Carmo são pessoas de bem, e com posses, por que alguém faria desaparecer uma simples imagem de São José? Já tínhamos escolhido o local onde ela ficaria, perto do altar do arco cruzeiro, e bem ao lado daquela projetada de São Simão Stock. É claro que não poderia ter sido ninguém da Ordem Terceira do Carmo. Talvez algum ajudante dos mestres que estavam executando a construção da Igreja.

O padre Correia olhou firmemente para os irmãos, sentados em volta da mesa do consistório e decretou: “Vamos resolver este assunto aqui entre nós, nada de sair por aí espalhando esta notícia. O assunto é sério e nós vamos descobrir como desapareceu esta imagem de dentro da sacristia. Sozinha ela não saiu andando, por mais que eu venere a figura de São José. E ele não está de botas para sair por aí andando a cavalo”.

Vosmicês não fazem nem ideia da força e da influência que o padre José Correia da Silva exerce sobre todos nós. Dizem que é homem muito rico, vindo lá das terras do Curvelo, e muito culto. Dono de lavras e da botica onde minha mãe busca alívio para as dores da perna. Bem, eu sinto um pouco de vergonha em dizer isso aqui, mas ela não é propriamente a minha mãe natural, já que eu sou o que se chama aqui um exposto. Fui colocado, logo que nasci, à porta de uma casa da Vila, envolto em cobertas. Fui adotado por uma senhora muito boa, alma boníssima, e recebi no batismo o sobrenome da família dela, Miranda. De meus pais sei apenas que são brancos, pela minha cor, e que minha mãe verdadeira, ao me conceber, era ainda uma moça solteira, portanto impossibilitada de me apresentar como filho. Eu entendo.

A casa do padre Correia na Vila do Sabará é maior e melhor do que as casas de muitos senhores antigos. Fica ali na Rua Direita, perto da Rua do Fogo. Casa de mesa farta, e de muita devoção também. O padre Correia mandou até construir uma ermida especialmente para suas orações matinais e vespertinas, quando se recolhe depois de suas múltiplas atribuições como Vigário-Geral da Vila do Sabará.

Nós permanecemos calados, mudos, estarrecidos, até que alguém arriscou um palpite: “Isto só pode ter sido coisa lá do Arraial do Piolho”. Foi aí que começou um vozerio infernal, e o padre-comissário fez sinal para pararmos de falar. Parecia que todos haviam despertado do choque ao mesmo tempo. O velho Seabra mascava fumo feito um louco, e cuspia para o lado, como a excomungar todos os malvados desta terra e junto os profanos, os assassinos, os ladrões, os facínoras, e, de sobra, um pouquinho para o Marquês de Pombal. Mas, a verdade é que continuávamos sem entender por que cargas d'água alguém entraria na Igreja do Carmo para furtar uma imagem quase insignificante de São José de Botas, feita em madeira lá nas terras do Rio das Mortes. Além disso, eu achei muito curiosa a palidez no rosto do irmão-tesoureiro, palidez de quem vira um fantasma ou descobrira um rombo nas finanças da Ordem.

Padre Correia decidiu entregar a investigação do fato ocorrido para o irmão que estava sentado lá no final, bem distante de mim, muito calado, muito ensimesmado. Foi para o velho doutor José Teles, antigo prior do Carmo e pessoa muito conhecida no Sabará, que recaiu a missão de apurar aqueles fatos tão estranhos. Eu morria de curiosidade, mas achei que não ficava bem, por eu ser ainda tão moço, me meter nesta investigação.

O senhor José Teles é um homem respeitável, com uma grande família, um casal do primeiro casamento e cinco filhas do segundo, gente lá das bandas do Caeté, de muitas posses, muitos escravos, e que controla várias lavras no Rio das Velhas. Eu tenho um grande respeito por ele. Homem de físico mais para o avantajado, gosta de uma boa comida, segundo dizem, mas nunca toma uma aguardente, nem se o dono da casa disser que é para beber como remédio. Nas cerimônias anuais da Ordem do Carmo sempre ocupou uma posição de destaque na procissão, e parece que mais de uma vez foi Imperador do Divino do Sabará.

A escolha dele como uma espécie de ouvidor para descobrir o paradeiro da imagem levantou muitas suspeitas na minha cabeça jovem. Era muita munição para um bacamarte só. Até eu era capaz de perceber isto. Sinal de que havia alguma coisa a mais nesta história.

Minha curiosidade aumentou muito quando eu percebi que o semblante do irmão-tesoureiro desanuviava e ele suspirou aliviado. Aliviado de quê? É exatamente o que eu gostaria de saber. Se não fosse o temor que eu tinha do padre Correia, sairia correndo dali mesmo para comentar este assunto com meu amigo Túlio. Ele haveria de pensar uma razão para tudo aquilo.

São José de Botas, São João d'El Rey, José Teles, padre Correia, irmão-tesoureiro, eram peças de um verdadeiro quebra-cabeças naquela Vila Real, com tão poucas novidades. Fiquei de pensar mais tarde. Por ora, apurei os ouvidos para escutar o que o padre Correia dizia ao senhor José Teles.

“Temos que descobrir o paradeiro desta imagem o mais rápido possível, mas temos também que descobrir as reais intenções de quem entrou aqui na sacristia deste templo do Senhor para subtrair um bem da Ordem Terceira do Carmo. Isto não pode ficar impune. Confio que o doutor José Teles usará de toda discrição possível para descobrir o culpado, ou os culpados, e isto sem envolver, por enquanto, o senhor Ouvidor-Geral da Vila Real.”

A reunião da Mesa foi encerrada em seguida e saímos em pequenos grupos. A conversa logo mudou para as coisas do dia a dia da Vila. Ninguém parecia se importar muito com o São José de Botas, ou com o fato de ter havido um furto na nossa capela.

A Igreja do Carmo, o último dos grandes templos a serem construídos no Sabará, muito depois da Igreja Grande, e da Igreja das Mercês, e da Igreja do Rosário, mesmo depois da capela de Santa Rita, e daquela dedicada a Nossa Senhora Rainha dos Anjos, haverá de ser certamente a mais bela. Os irmãos da Ordem escolheram um local totalmente inusitado. Voltada para as bandas do Rio Sabará, de porte comparável à da Matriz, num local ainda ermo, estabelecendo um caminho novo entre o Largo das Mamoneiras e a Lagoa. Sua execução foi entregue ao mestre pedreiro Thiago Moreira. Levará ainda muitos anos para ser dada como terminada.

Eu me destaquei do grupo, apurei o passo pela ladeira e fui direto para a Casa Cinza. Disse um “ô de casa” tímido, olhei de soslaio, e entrei pela porta dos fundos. Dei de cara com a escrava Joana, que fazia qualquer coisa no braseiro. Ela disse baixinho um “basnoites” e continuou a sua tarefa, revirando a comida no tacho.

A Casa Cinza, como nós a chamamos, é onde se reúne outro grupo da Vila, do qual eu faço parte. Algumas pessoas da minha família se referem a este grupo como esnoga. Não tenho a menor ideia de onde surgiu este termo. A motivação aparente é um joguinho de pedras às sextas-feiras, mas na realidade fazemos sempre um pouco mais. Um prato constante é falar mal do senhor D. José I, El-Rey de Portugal, que nos impõe cada vez mais restrições ao comércio.

Quando entrei no quarto dos fundos onde nós costumamos nos reunir, já lá estavam Manoel Vilar, João Marciano, dona Francisca Georgina, Domiciano Rodrigues, e meu primo João Miranda. Antes de me sentar, passei a mão pela mesinha do canto onde estavam biscoitos de polvilho e um bule de café. Estava com muita fome.

Enquanto esperamos chegar mais gente para a reza, falamos da vida. Eu não quis comentar nada sobre o furto da imagem lá na Igreja do Carmo, atento às recomendações do padre Correia. Mas perguntei se alguém ali sabia se furtos estavam acontecendo na Vila. Dona Francisca disse que um escravo havia comentado que sumiram dez oitavas de ouro da mineração de Roça Grande. Achei que era irrelevante para minhas preocupações.

Fui interrompido em meus pensamentos pela chegada brusca de Ribeiro da Costa, que desabou em cima de uma cadeira de canto, limpando o suor do rosto. Ele disse mais ou menos o seguinte: “Estão esperando a chegada ainda hoje ou amanhã do doutor Cláudio Manoel da Costa, de Vila Rica, que vem da parte do Governador-Geral, para preparar a Vila para mais uma visita do Conde de Valadares. O objetivo é o mesmo de sempre. Continuamos longe da arrecadação das cem arrobas de ouro que El-Rey espera das Minas. Parece que agora para compensar a baixa na extração vão-se taxar outras coisas, como por exemplo a aguardente das fazendas”.

“Ou tem alguma coisa a ver com aquela doação que a Câmara do Sabará aceitou fazer, por dez anos, para a reconstrução de Lisboa, e que acabou faz tempo. Dizem que o querido Marquês quer mais. O Senado da Câmara está meio revoltado e dizem lá que se for por isso eles não vão aceitar. Quero ver aqueles áulicos comunicarem isso ao próprio Conde de Valadares.”

Houve uma desaprovação geral. Mas também um certo conformismo. Todos sabíamos que era impossível satisfazer a cobiça de El-Rey D. José I, e de seu malfadado ministro D. Sebastião José de Carvalho e Melo. Assim mesmo, por extenso. Nome temido nas Minas, sobretudo depois da expulsão dos jesuítas, o que nos deixou sem quem nos desse uma formação católica e cultural. O próprio padre Correia mantinha uma escola de jesuítas, sabe-se lá como. De qualquer forma, a chegada do Conde de Valadares no Sabará não era uma coisa corriqueira. Cercava-se sempre de grande pompa, ele que era o representante de El-Rey em nossas terras. Como sempre, também agitavam-se os grandes da Vila, com a possibilidade de festança, e de novos negócios. Todo mundo estava procurando meios de compensar a perda crescente na exploração das lavras e dos rios. As bateias já não faiscavam como antigamente. Era uma boa oportunidade para o comércio de escravos, por exemplo. Escravos que seriam usados na plantação do feijão e do milho. Os índios, definitivamente, não seriam mais usados no cultivo da terra.

Eu, que sou ourives de ofício, pensei que poderíamos fazer mais coisas em ouro, como palmas para enfeitar as Igrejas, por exemplo. Eu sabia que havia um bom mercado no Rio de Janeiro e Paraty. O Conde de Valadares, com ideias avançadas para um nobre da casa real, talvez pudesse ajudar, ao invés de apenas pensar em arrecadar impostos. Queriam, segundo se comentou ali na reunião, começar a cobrar imposto sobre as rendas dos artífices como eu. É o fim.

A nossa esnoga é composta de 18 membros. Homens e mulheres. Não sei de onde veio este nome, nem este número, mas sempre me cheirou a uma espécie de sociedade secreta. E eu gosto disso. Neste lugar ermo, meio parado, onde só se pensa no trabalho do ouro, é bom ter um grupo que pensa diferente e se diverte um pouco, embora tudo meio dissimulado, não sei o porquê. Talvez medo do falatório do povo. Isso eu aprendi com meus pais José e Rosa Miranda, que faziam um certo mistério deste joguinho das sextas-feiras, desde quando eu era muito criança.

Quando completei treze anos fui admitido no círculo dos dezoito da Casa Cinza. Sempre senti um grande orgulho disto, e nem o Túlio sabe direito o que se faz lá. Há um acordo de nunca comentarmos com pessoas estranhas. Acho que existem outros grupos assim, com diversos objetivos, no Serro do Frio e Vila Rica.

Enquanto as pessoas falavam, quase que simultaneamente, sobre o Conde de Valadares e seus prepostos, eu deixei meu pensamento vagar até Minga, a mulatinha sapeca que eu conhecera quando fui levar umas encomendas no Bom Retiro de Santa Luzia, às margens do grande Rio das Velhas. Ela é uma escrava na casa do coronel Domiciano Lima, um rico dono de lavra na região.

Essa menina me encantou desde a primeira vez, quando trouxe uma bilha de água fresca para que eu me refrescasse, depois da viagem. Naquela noite mesmo ela me procurou no quarto, pulou a janela, cheirosa, e se aconchegou junto ao meu corpo, quase explodindo de tanta excitação. Fizemos amor a noite inteira. Uma mulata adorável, suculenta, amorosa, de fala mansa e peitos abundantes. Eu me apaixonei por ela e prometi voltar muitas vezes, o que tenho feito com frequência. Quando as conversas na Casa se tornam entediantes, ou viram discussão, eu me refugio na imagem de Minga. Linda escrava, que sabe fazer amor como nenhuma outra mulher nesta Vila do Sabará. Não que eu conheça muitas, elas que mal aparecem às janelas, por detrás das cortinas, mas tenho certeza que nenhuma destas raparigas pode comparar-se à minha Minga. Assim que eu conseguir um dinheirinho extra eu vou propor comprá-la e vou trazê-la para o Sabará. Nem quero saber o que vão dizer lá em casa.

A verdade mesmo é que a população negra nas Minas excede muito a de brancos ou até dos pardos. A extração do ouro exige muito trabalho escravo. Ninguém mais, a não ser os africanos, aguentaria trabalhar sob sol intenso, o dia inteiro, e com uma comidinha muito básica. Eu concordo. Quem, branco e bem nascido, iria se dispor a trabalhar deste modo? E como conseguiríamos dar a El-Rey o que ele pede com tanta insistência? Imaginem. Reconstrução de Lisboa. O que eu tenho com isto?

Os membros do Senado da Câmara do Sabará são muito pouco dispostos. Falavam pelas costas, reclamavam, batiam pé, mas na hora do vamos ver, todos abaixavam a cabeça para o Governador-Geral.

As inconfidências nas Minas não são propriamente uma novidade. Muito se falava daquela do Curvelo, de que teria participado o próprio padre Correia. Foram movimentos espasmódicos, sediciosos até um certo ponto, mas com uma coisa em comum. A ojeriza ao senhor Marquês de Pombal. Este homem tem parte com o demo. Como pode ter tido a coragem de expulsar os jesuítas de Portugal? E expulsá-los das Minas também?

O padre Correia estava meio envolvido com tudo isto, porque tinha muitas ligações com a Companhia de Jesus. Eu nem sei como isto vai terminar. Ele é muito respeitado aqui, não é à toa que é o comissário do Carmo. Todo mundo gosta dele, mas dizem que é muito enérgico. Eu só não entendo de onde vem essa riqueza toda. Deve ser de família. Dizem até que o mestre Antônio Francisco tem trabalhado na casa da Rua Direita, aproveitando a estadia aqui para executar as obras do Carmo.

Já ia longe a noite quando eu finalmente deixei a Casa Cinza. Fui caminhando com vagar, passei pelo Chafariz do Kaquende, bebi água fresca, e notei que havia ainda muita vela acesa dentro das casas. Mas uma me chamou a atenção. O que fazia o Móti acordado até agora? Eu sabia de seus hábitos de dormir logo depois da ceia, tendo pitado um fumo trazido lá de Paraty. E, olha só, tem mais gente lá com ele. Fui me aproximando devagarinho, protegido pelas sombras.

Eu ainda não disse aqui, mas sou muito curioso. E esta curiosidade, desde menino, tem me rendido.

Uma vez peguei o frei Manuel de Santa Maria, homem piedoso e muito respeitado aqui na Vila, lá por detrás da capela de Santa Rita apertando uma negra no escuro, que dava uns gritinhos muito estranhos. Estaria dando algum consolo espiritual? Não sei, mas ele, que me percebeu de longe, passou a me tratar com grande deferência naquela época, e até me deu um pouquinho de ouro em pó para que eu comprasse alguma coisa na botica. Só me pediu que eu não comentasse nada, coitada da escrava, estava apenas dando um adjutório à pobre coitada, mulher muito sofrida. Coisa que os homens de Deus devem fazer, sem olhar cor ou origem. Só isso, claro.

E eu tenho sido muito discreto sempre, respeitoso com as autoridades da Vila, o que certamente influiu para minha admissão como irmão do Carmo.

O que estaria fazendo o Móti a esta hora? Cheguei mais perto. Havia umas cinco pessoas em volta de uma mesa, pesando alguma coisa. Ouro, eu pensei. O Móti era também um ourives como eu e relojoeiro. Deu para perceber, pela cor, que não se tratava de ouro. Era coisa mais brilhante. Talvez diamante. Diamante? Eu nunca tinha visto um diamante bruto, daqueles que dizem que são encontrados lá para os lados da Vila do Príncipe. Como ourives, fiquei mais curioso.

Aquelas pessoas em volta da mesa não eram do Sabará. Gente desconhecida, talvez tivessem chegado só para ouvir ou vender alguma coisa para o Móti. Mas como podem ter trazido diamante – se forem diamantes – para tão longe da região diamantina? Na mesma hora percebi que deveriam ser baianos, fazendo contrabando de pedras. Devem ter vindo pelo sertão, descendo pelos rios, passando por Conceição do Mato Dentro, daí até Curvelo, Caeté e Sabará. Uma longa viagem para fugir ao cerco de El-Rey. E devem ter trazido belos exemplares de pedras. Eu continuei nas sombras, observando.

A rua estava absolutamente deserta, eu podia ficar relaxado. Os homens esfregavam as mãos, nervosos, enquanto o Móti virava e revirava cada uma das pedras. Eram muitas.

O comércio de pedras, digamos informal, era bem conhecido por nós ourives. Os mineradores tratavam de colocar as pedras, no nosso caso pepitas de ouro, em diversos apetrechos, de maneira que pudessem chegar a salvo até o litoral, e de lá para a Europa, sem passar pelo fisco. Havia muita coisa de pouco valor, e por isso era importante fazer uma avaliação correta.

O Móti era uma pessoa bem escolhida, conhecedor profundo de pedras e honesto. Por isso muitos forasteiros vinham procurá-lo, e sempre da forma mais discreta possível. De repente, notei que o Móti ficou inquieto com alguma coisa que lhe foi dita. Sacudia a cabeça em desaprovação, e os homens ficaram mais perto dele, como a fazer algum tipo de ameaça. Ele parou de olhar as pedras e se afastou um pouco da vela, de maneira que não pude ver bem para quem ele se dirigia. Apenas percebi que havia um clima tenso, e começou uma discussão, até que um dos homens desfechou um soco na mesa de avaliação, com violência.

A vela tremeu, as sombras se misturaram, e ouviu-se um grande estrondo para o lado da Barra, que sacudiu o vidro das janelas. Eu quase morri de susto.



Chapter 2



O senhor José Teles, homem sábio, colocou a mão no único bolso do gibão apertado, e despediu-se dos irmãos que ainda conversavam na porta da sacristia inacabada da Igreja do Carmo. Montou em sua mula e saiu matutando em direção a casa, que ficava longe, lá no Arraial de Tapanhoacanga, em uma ruela que começa bem de frente à Igrejinha do Ó.

Era seguido de perto pelo negro Clemente, seu auxiliar para todos os ofícios. Ia devagar, preocupado com a incumbência que acabara de receber na Ordem do Carmo. Nem sabia por onde começar. Apenas desconfiava. Era homem de falar pouco e de muitas decisões.

Seu pai participara do levante de Caeté contra os paulistas que estavam dominando as Minas, lutara ao lado do famoso Manuel Nunes Viana, e ajudara a proclamar a independência do território. Tinha antecedentes para gerar confiança no padre Correia. Era homem devoto, fazendo grandes doações para as festas do Divino, e vinha ajudando enormemente na construção da capela da Ordem.

Foi pelo caminho conjecturando duas coisas. Por que alguém sumiria com uma imagem de madeira, aparentemente sem maior valor, e por que ele teria sido escolhido para fazer uma investigação, tão pouco comum naquela Vila. Acontecia realmente que negros fugidos, ou mesmo forros, ficassem sem ter o que fazer pelos caminhos e ruelas, e algum tipo de furto acontecesse. Mas era furto de algum animal como porco, ou era furto de algumas onças de ouro. Nada muito significativo. Havia gente que era assaltada em viagem, naqueles caminhos do sertão, próximos a quilombos. Mas roubar uma imagem de São José, padroeiro dos construtores, não fazia sentido. Coisa para discutir com dona Amélia, sua mulher, enquanto tomava um mingau de fubá bem quente.

Apeou da mula, entregou as rédeas para o Clemente sem dizer nada, limpou as botas e entrou em casa.

“Vosmicê voltou de cara fechada, seu Zé. Caiu alguma coisa em vosmicê?”

“Não, dona Amélia. Fui na reunião da Mesa só para fazer número, e sai de lá com um trabalho que me deu o padre Correia. Trabalhinho complicado. Num tá me cheirando bem.”

“Uai, gente. Que trabalhinho foi esse?”

“Encontrar um ladrão de imagem.”

“Seu Zé, num fala isso. Até imagem estes negros estão roubando agora?”

“Dona Amélia, ninguém disse aqui que foi um negro.”

“Uai, seu Zé, quem mais vai querer roubar uma imagem de Igreja, se não são estes infelizes? Mas que imagem é esta, minha Nossa Senhora?”

“Uma imagem de São José de Botas que a nossa Ordem Terceira recebeu de presente daquela de São João d'El Rey. Já tinha até um lugar escolhido no altar mor, bonitinho, pronto para ela ser colocada.”

“Seu Zé, isto é motivo assim tão grave para vosmicê ser escolhido para descobrir o paradeiro dela? Será que tão achando que foi vosmicê que pediu emprestado para a Igreja Grande?”

“Dona Amélia, eu acho que tem alguma coisa mais nesta história. O irmão-tesoureiro, capitão Armindo Barbosa, tava muito nervoso na hora de anunciar esta perda. Não pode ser só pela imagem. Que mais pode ser, meu Deus do céu?”

“Seu Zé, vosmicê vai descobrir direitinho. Tenho certeza. Conheço vosmicê. Se quiser, começo indagar aqui pela vizinhança se alguém viu uma imagem destas em alguma casa.”

“Não toca neste assunto, pelo amor do Cristo, mulher. O padre Correia não quer nem que o Ouvidor fique sabendo. Também não sei por que, ele nem explicou, vosmicê sabe como é o padre Correia.”

“Então, como vosmicê vai desenrolar este novelo?”

“Eu vou começar lá pela nossa Igreja. Quero saber direitinho onde ficava esta imagem, quem entrava nas partes mais de dentro, quem tem a chave da entrada, e outras coisas. Tenho que começar pela nossa Irmandade, claro, embora eu não acredite que alguém de lá pudesse ter algum interesse nesta imagem. Depois, quero saber do sô Armindo porque a nervosia. Vou também mandar um recado pelo Clemente para gente minha em São João d'El Rey para descobrir quem foi que fez a imagem. Quero saber se não tem nada de diferente nela. Vamos ver se não é mais um santo de pau oco.”

“Seu Zé, eu se fosse vosmicê conversava também com o povo das Mercês. Tem havido muita conversaria entre as mulheres que a Irmandade das Mercês anda sem uma pataca para fazer qualquer coisa. E se alguém resolveu pegar esta imagem para vender para algum reinol? Eu ouço dizer que tem gente comprando outras coisas daqui para levar para a Europa.”

“Dona Amélia, mulher entende só de fazer mingau de fubá. Não entende de mais nada.”

“Ai, seu Zé, sai pra lá. Eu entendo muito bem destas coisas. Eu tenho olho, seu Zé, eu enxergo muito bem. Posso até não ouvir direito, mas enxergar, enxergo longe.”

“Pois então, vosmicê fique sabendo que amanhã saio para caçar lá pelas bandas da Serra da Piedade.”

“De novo, seu Zé? Vai levar mais alguém?”

“Só o Clemente. Vou passar uns dois dias fora. Cuida de tudo aqui.”

José Teles não foi imediatamente dormir. Queria procurar alguma coisa naquelas caixas guardadas lá fora, numa espécie de oficina. Levou uma lamparina, revirou coisa para cá e para lá, até que encontrou o que queria. Dava para perceber um ligeiro sorriso matreiro. Guardou uma caixinha, parecida com caixa de rapé, no embornal que carregava, e voltou para casa. Antes, deu rápidas instruções ao Clemente, que pitava encostado na parede da palhoça, e foi deitar. Se pensava em dormir agora, seu desejo durou pouco. Alguém, embrulhado numa espécie de capa escura, veio bater à sua porta. Batidas leves, para não serem ouvidas a não ser por quem era procurado. Nem tinha ainda começado a se despir.

Saiu do cômodo que servia de quarto de dormir, deixou dona Amélia grudada no terço, e foi ver quem era. Era alguém que ele esperava, porque abriu a porta devagar e mandou entrar.

Era uma mulher jovem. Olharam-se sem dizer uma palavra e ela lhe passou um saquinho de couro, amarrado com um cordel. Ele pegou, colocou na palma da mão para avaliar o peso, e sacudiu a cabeça em aprovação.

A mulher não disse uma palavra. Saiu como entrou, e caiu na escuridão da noite de Tapanhoacanga.


Já podia ser umas quatro horas da manhã, nem galo tinha cantado na vizinhança, e dona Amélia começou a quentar o bule com um líquido escuro que servia para espantar o sono, misturado com rapadura. Estava ensimesmada, conforme fez questão de dizer logo ao marido.

“Seu Zé, esta história de imagem de santo tá me parecendo esquisita. Passei a noite pensando nisso. Não teria nada de mais, se vosmicê não fosse escolhido para fazer uma apuração. Será que não é uma maneira do padre Correia tirar vosmicê da grande festa da Senhora do Carmo? Vosmicê foi Imperador do Divino, é muito ligado ao povo da Matriz, é gente de posse, não pode ser isso?”

“Dona Amélia, num tô com cabeça para pensar nisso. Tem muitos negócios de ouro pedindo a minha atenção agora. Vou mascar um fumo e rezar um pouco.”

Dona Amélia não era de desistir tão fácil. Estava louca para contar para Belinha, vizinha para todas as aflições, os motivos de suas preocupações. Já tinha percebido tudo. Era a festa de Nossa Senhora do Carmo a razão do marido ter recebido esta incumbência. Queriam afastá-lo dos festejos, se possível que ele tivesse que ir para bem longe, lá para os lados de Aiuruoca. Ele que gostava tanto de carregar o andor da Virgem, e falar ao povo em frente à porta da Igreja. Queriam tirar dele este prazer. Devia ser coisa de gente invejosa.

Se ela pudesse contar tudo para Belinha, as duas saberiam como desfazer estas intrigas, na hora da novena. Ora, vejam só. Que importância podia ter uma imagem de madeira de São José de Botas, feita por lá se sabe que mestre desconhecido de São João d'El Rey, que se podia comprar, pagando muito bem, por uma oitava. Essa não. Tem intriga nisso.

Dona Amélia era conhecida pelos quitutes e quitandas que fazia no terreiro, em forno de barro, e que aos sábados saía distribuindo pela vizinhança. Esta broa é para dona Rosita, esta milharada para dona Mulce, esta paçoca para a senhora dona Efigênia. Todas moradoras ali perto, gente afeita ao trabalho duro das minas, companheiras nas rezas de tarde na Matriz. Uma delas guardava em casa, com grande zelo, a chave que abria a Igrejinha do Ó, cheia de preciosidades, um orgulho de Tapanhoacanga.

Ah, se ela pudesse ao menos falar com Belinha. Mas que coisa ridícula, pensava ela, enquanto passava para uma escrava as panelas pretas de barro da primeira refeição do dia. Não poder dizer que uma imagem foi roubada da Igreja do Carmo, que nem pronta ainda está. O que tem isso?

Dona Amélia tinha elaborado, durante a noite, uma teoria muito simples. A imagem não havia sido roubada coisa nenhuma, alguns irmãos do Carmo, entre eles o padre-comissário, criaram esta história para afastar o marido das preparações da grande procissão que celebraria o dia de Nossa Senhora do Carmo. Claro, haveria de ser isso. Mas eles certamente não contavam com a matreirice de Dona Amélia, pensava ela. Eu não nasci ontem. Nasci na beira do Ribeirão de Santa Bárbara, na região do Caeté, fui criada com muito mingau de milho verde. Este povinho aqui não me engana. Este padre Correia é um santo homem, pensava e fazia o sinal da cruz, mas só porque é muito rico acha que é mais esperto. Comigo não.

E assim ia tocando, enquanto supervisionava as escravas da casa, os afazeres do dia. Para o almoço, que deveria estar pronto lá para umas nove horas da manhã, já determinara que fosse servido frango com ora-pro-nobis, uma verdura abundante nos quintais e nas roças ali perto. Era preciso demonstrar tranquilidade e inocência. Ninguém deveria perceber o que rondava lá no seu íntimo. Nem o padre Tirrino, um italiano perdido nas Minas, auxiliar do Vigário da Matriz, e muito amigo de José Teles.

Depois do almoço, tendo descansado uma meia hora deitada numa grande almofada na sala de dentro da casa, enquanto a escrava Faustina abanava para amenizar a quentura da manhã, ela decidiu falar com Belinha. Se não falasse, morria. Arrumou-se devidamente, e saiu acompanhada de Faustina, como se fosse comprar alguma coisa no armazém do seu Antônio, perto da Matriz. Foi direto falar com Belinha. Quando entrou em casa desta, quase teve uma síncope. Belinha falou primeiro:“Soube que roubaram uma imagem da Igreja do Carmo?”

“Não, siá Belinha, minha filha, não soube. Mas roubaram como?”

“Os detalhes eu não sei, mas parece que tinha alguma coisa muito valiosa dentro dela, não posso dizer quem me disse, nem insista, dona Amélia.”

“E quem te contou, Belinha?”

“Foi uma escrava de dona Fafá, que ouviu o sô Pedro contar baixinho em casa, e correu aqui para dizer para a minha Neguinha, que me contou imediatamente. Dona Amélia, se as mulheres desta Vila não disserem o que está acontecendo, a gente nem fica sabendo que chegou o Natal.”

“Inda é o que vale, siá Belinha.”

Dona Amélia voltou rapidamente para casa, arrasada. Como é possível isto? Belinha já sabia de tudo e ela não sabia de nada. Chegando em casa, convocou imediatamente toda a criadagem, e todos rezaram, em uníssono, um responso de Santo Antônio:


“Se milagres desejais

Contra os males e o demônio

Recorrei a Santo Antônio

E não falhareis jamais.

Pela sua intercessão

Foge a peste, o erro e a morte

Quem é fraco fica forte

Mesmo o enfermo fica são.

Rompem-se as mais vis prisões

Recupera-se o perdido,

Cede o maior dos furacões.

Penas mil e humanos ais

Se moderam, se retiram:

Isto digam os que viram,

Os paduanos e outros mais.

(Glória ao Pai)

Rogai por nós Santo Antônio

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.”


Santo Antônio, protetor de toda a região das Minas, de Roça Grande a Caeté, haveria de ajudar a encontrar a imagem perdida, e o senhor José Teles poderia se livrar do encargo recebido. Meu Deus, como é possível? Dona Fafá sabia de tudo, e ela, dona Amélia, não sabia de nada, ingênua, boba, burra, idiota. Intolerável. Mas agora a coisa seria com ela. Agora, quem sumiu com esta imagem vai se haver comigo, por tudo que há de mais sagrado neste mundo. Parou por um instante para ponderar se não estava sendo muito severa. Concluiu que não.

Coitado do Zé. Além do serviço duro a que era obrigado fazer todos os dias, para fazer a mineração e a roça produzirem, ainda tinha que se preocupar com a armação dos outros. Será que valia a pena ter se tornado um irmão do Carmo? Bem, não poderia ter sido de outra forma, sendo ele um homem bom, quer dizer, branco e rico. Paciência.

Dona Amélia chamou, então, uma negrinha de canelas finas, muito esperta, por nome Ofélia e mandou que ela fosse levar um recado para certa Antônia Firmina, lá no Arraial da Esperança.

Estava determinada. Gritou para a negrinha: “Chispa!”.



Chapter 3



Minga uma vez sussurrou no meu ouvido “gostava de morá no arraiá da Barra”. Acho que ela queria dizer mesmo era que gostaria de morar na Vila Real. O Bom Retiro de Santa Luzia fica a muitas léguas daqui, com poucos fogos e uma Igreja. Minga, mulatinha afoita, queria largar aquela vida para lá e progredir. Eu também tinha vontade de trazê-la, já disse isso. Nas noites frias do Sabará, sozinho no catre, eu ficava pensando no corpo quente e nos seios duros de Minga. Era preciso jogar água fria nos pulsos, como me ensinaram quando fiquei adolescente, para não enlouquecer.

O coronel Domiciano Lima já havia percebido o meu interesse por Minga. Se eu chegava de repente, ele tratava logo de arrumar um serviço para ela bem longe do terreiro. Era sempre uma enorme cesta de roupa da casa para lavar no rio. Eu já tinha matutado que o coronel queria reservar Minga para ele mesmo. Mas acho que antes disso ela sumiria dali.

Estava eu, uma certa vez, descansando debaixo de árvore frondosa, faltava ainda uma meia légua para chegar no Bom Retiro, e Minga me apareceu. Vestia só um vestidinho de chita por cima da pele, e nada mais por baixo. Vinha com um ar indolente – coisa rara nesta mulatinha – e carregava um cesto com ervas do mato. Tinha ido longe buscar umas plantas que curam para a botica do coronel. Eu fiquei olhando, parecia um sonho. Era um sonho. Estava tão longe do meu destino, cansado, molhado de suor e aparece Minga. Ela me viu primeiro, e sorriu. Deixou a cesta no chão e veio correndo me abraçar. Arranquei sua pouca roupa e fizemos amor ali mesmo, naquele mesmo instante, por cima do mato molhado. Queria que nunca mais acabasse.

E foi assim, corpos úmidos de suor se abraçando, eu beijando aqueles seios maravilhosos, que ela me contou um segredo que talvez nunca devesse ter contado. Eu fiquei estarrecido. Havia um grupo de negros no Bom Retiro planejando uma fuga em massa, cujo objetivo seria cair no sertão e chegar até um novo quilombo na Serra do Caraça. Antes, porém, planejavam matar os feitores, e até os senhores, se fizessem qualquer oposição. Mas por que Minga foi dizer isto para mim? Suspeito que aquilo estava perturbando sua cabeça, e quando ela se viu livre ali, relaxada, resolveu desabafar. Ai, meu Deus. Eu sou branco, não posso saber destas coisas. E logo agora que eu estava cheio de planos de levá-la para o Sabará, e até já a via postada próxima à janela, sorrindo com aquele sorriso tão lindo de menina, atenta ao movimento da Vila. E, nas noites, nós passaríamos horas nos braços um do outro.

Coloquei-lhe as mãos na boca, e olhei para os lados, com medo.

“Minga, não fala mais sobre isso, nem para mim, nem para ninguém. Vosmicê corre risco de ser morta pelos escravos, ou ficar no tronco até contar tudo ou morrer no chicote.”

Eu sabia que o coronel Domiciano Lima era um português bravo, vindo lá de Viana, e não ia deixar passar nada. Com ele não haveria contemplação. Ao dizer isto, eu tremia. Porque na mesma hora percebi que eu também corria perigo, por causa de Minga. Ficamos abraçados um longo tempo, e eu sentia aquele cheiro gostoso que ela tem. Não queria perdê-la, e comecei ali mesmo a pensar como poderia levá-la para o Sabará. Meu Deus, que confusão. O que diriam os irmãos do Carmo e os amigos da esnoga? E a família Miranda, como iria aceitar Minga, uma forra morando comigo? Naquele momento mil coisas se passaram pela minha cabeça, mas eu senti que tinha que terminar aquela cena de amor e tratar de voltar para a Vila, sem perder muito tempo.

Mandei Minga voltar para o Bom Retiro, com a cesta de ervas, e não dizer para ninguém que havia me encontrado. E muito menos comentar com as outras negras do coronel qualquer coisa sobre o plano de fuga. E não comentar nada com ninguém, pronto. Mas eu sabia como Minga gostava de falar, e contar para as outras o que fazia comigo, um pobre diabo em suas mãos hábeis de mulher-menina. Eu sabia perfeitamente dos riscos que estava correndo, então, e queria tratar de sumir o mais rápido possível.

Foi uma volta difícil. Triste e abalado, além de muito cansado, pois planejava passar pelo menos uns três dias no Bom Retiro. Pernoitei na fazenda do major Joaquim Mariano, um amigo de meu pai, e onde eu eventualmente dormia, nestas viagens daqui para ali. O major, depois da ceia, me dizia como os negros estavam agitados nestes tempos, e era preciso ter muita cautela. Parecia até que ele adivinhava. A população de escravos, forros e mestiços nas Minas era muitas vezes maior do que a de brancos. Com a diminuição da produção nas lavras, era preciso trazer mais gente do Rio de Janeiro para o trabalho, que havia praticamente dobrado. Se não fosse assim, seria a derrocada de muitos senhores, pessoas respeitáveis e bons cristãos, sem condições de enfrentar as despesas. Eu acenava a cabeça concordando com tudo, mas ela – a minha cabeça – estava longe, lá com Minga, talvez agora encostada no corpo de algum negro fujão, e isto começou a me encher de um sentimento esquisito que eu não conhecia, uma raiva dentro do peito.

Major Mariano, que tinha poucas visitas com quem conversar, mascava mais um pouco de fumo, e reiniciava a contar as revoltas que estavam acontecendo, não apenas no sertão, e não apenas dos negros, mas também dos índios, dos brancos e dos jesuítas. Quando ele mencionou os jesuítas, dona Ana Jacinta, sua mulher, persignou-se e lançou um olhar suplicante para o Cristo na parede. A se levar em conta tudo que o major me confidenciava, as Minas estavam a ponto de explodir. E eu só me importava com Minga. Fui tomando uma decisão ali mesmo, acocorado no chão de terra batida da casa do major Mariano, perto de um braseiro que amenizava um pouco o frio que o vento trazia lá do rio.

Decidi voltar ao Bom Retiro. Louco, louco, louco. Sim, mas louco de amor. Dia seguinte, ainda madrugada, despedi-me do major e dona Ana, carreguei um saco com um pouco de carne seca e umas broas de milho, e caí no caminho, voltando para Minga. Enquanto a mula me levava, eu pensava como poderia fazer para tirá-la deste plano de fuga. Ela não podia fazer isso comigo. O major me emprestou um moleque, que me acompanhou até chegar nos limites do arraial, e eu pude fazer o caminho bem rápido. Cheguei a tempo de almoçar com a gente do coronel Lima. Ele me saudou verdadeiramente feliz, porque andava muito precisado de um avaliador para algumas pedras que tinham aparecido por lá.

Quando pude respirar um pouco, saí à cata de Minga. Por onde andaria a minha loucura? Encontrei-a no terreiro, com outras escravas, debulhando milho. Fiz um ar de superioridade da raça, olhei por cima o trabalho sendo executado, e dei com aqueles olhos de jabuticaba olhando fixamente nos meus olhos. Fiz que não entendi, mas percebi, apavorado por dentro, um risinho cúmplice das mulheres. Elas já estavam cansadas de saber sobre mim, não adiantava enganar. Fiz um sinal para ela, o mais discreto que eu pude, mas quase derrubei uma panela enorme na passagem entre uma palhoça e outra.

Minga levantou-se, e veio com aquele gingar de onça do mato, os peitos quase pulando para fora de um pano branco que lhe envolvia a cintura e o colo. Queria agarrá-la ali mesmo, e já ia fazendo isso. Foi Minga mesmo quem me deteve. Fez sinal que alguém poderia estar nos vendo. Apavorei de novo. Pensei naquele negro fujão de minhas fantasias, fiquei enlouquecido. Dou-lhe um tiro de bacamarte. Minga desfez minha intenções com um sorriso. Ah, que sorriso tem aquela menina. Capaz de aplacar as mais santas iras, e acabar com as mais sérias desavenças.

Foi aí que contei meus planos de levá-la para morar no Sabará. Iria conversar com o coronel naquele dia mesmo, e perguntar diretamente quanto queria para alforriá-la. Iria abrir o jogo de peito aberto, e nem quis pensar nas reações. Eu percebia muito bem as segundas intenções do coronel para com a minha Minga. Eu não podia esperar mais e correr o risco de vê-la escondida em um quilombo qualquer, sujeita a ser morta e decapitada por um capitão do mato. A conversa com major Mariano me deixara muito alerta. Vinha chumbo grosso por aí. A tensão nas Minas era crescente.

Minga só respondeu: “Não carece, não, meu sinhô”.

“Como não carece? Não quer morar no Sabará, a melhor Vila desta região, sede de Comarca que vai até os confins do Paracatu? Já sei. Decidiu mesmo fugir para o quilombo. Quer falar ubuntu com os negros, quer dançar aqueles batuques doidos, quer ter um monte de negrinhos barrigudos e de pé no chão. É isto que vosmicê quer, Domingas?”

“Não, meu sinhô... O coroné vai me mandar morar lá na Barra com a filha dele que vai casá, e aí eu vou ficá mais perto de vosmicê.”

Quase chorei de alegria. Minha boca deve ter ficado aberta uns dez segundos, sem que eu pudesse pronunciar uma única palavra. Ao invés de falar, eu beijei. Beijei loucamente aqueles lábios carnudos e quase a sufoquei. Apertei seus peitos e quis segurar aquelas coxas grossas e fortes. Ela não deixou. “Aqui não, meu sinhozinho.”

Depois disso, eu terminei o meu trabalho de avaliação, agradeci ao coronel efusivamente – ele ficou meio sem entender direito – montei em minha mula, agradeci a companhia de uns tropeiros e voltei feliz para a Vila Real.

Havia ganho o mundo.



Chapter 4



Aquele barulhão todo despertou a Vila. Ainda consegui ver, pela janela, o Móti recolhendo os instrumentos, e os homens nervosos meio apalermados, com cara de espanto. Achei melhor descer correndo pela Rua do Kaquende até a ponte, porque de lá se poderia ver melhor o que estava acontecendo. Seria um ataque botocudo?

A Vila Real havia sofrido com estes ataques no passado, dizem, o que havia trazido muitos problemas para as lavras. Os ataques dos índios haviam diminuído bastante nos últimos tempos, mas sempre chegava uma prosa do sertão contando um fato novo. Se fossem mesmo os botocudos nós todos teríamos que ajudar a tropa ou os escravos que estivessem defendendo a paliçada.

Quando cheguei à altura da ponte sobre o Rio Sabará e olhei na direção do Arraial do Fogo Apagou vi um vermelhão no céu. Já havia muita gente ali espiando. Com medo. Nós sempre estávamos com medo, porque havia uma boataria enorme correndo as casas. Ainda mais que o Governador das Minas estava programando uma visita à Vila, e esta seria uma boa hora para começar um levante. Pensei onde estaria o Túlio, que numa hora destas fazia muita falta com suas deduções. O clarão e o estampido indicavam que algum paiol de pólvora havia explodido. Se fossem os índios já estaríamos ouvindo um grande alarido e tiros de bacamarte. Mas não. A noite continuava serena, a menos dos comentários das pessoas. Alguns soldados da tropa regular começaram a atravessar a ponte, com bastante cuidado.

Olho para o lado e vejo a figura esquálida do Túlio, com uma camisola por cima da calça e um ar incrédulo olhando para o infinito.

“Pensei que fosse um ataque de quilombolas.” Eu sorri. O Túlio vivia com medo que os negros se revoltassem. Mas para isso havia os capitães do mato, os feitores e os senhores do sertão em busca de terras devolutas. Concordamos que alguma coisa havia explodido, mas por obra de quem? Eu apostava no acaso, embora este não fosse um grande personagem por ali, e o Túlio em alguma mão mal intencionada.

Logo ficamos sabendo o que havia, de fato, acontecido. Uma barcaça que descia o Rio das Velhas havia batido em uma chata que transportava barris de pólvora, e uma lamparina havia se encarregado do resto. Dois negros morreram na explosão.

Eu e o Túlio ficamos ali ainda algum tempo, olhando para dentro da noite, sentindo o vento frio que soprava do rio. O Túlio me perguntou de supetão: “Por onde andou, rapaz? Procurei vosmicê para tomarmos uma caninha no fim da tarde, e ninguém havia visto a vossa pessoa”.

Expliquei minhas obrigações na Ordem do Carmo, tantas coisas para serem feitas, algumas avaliações, e omiti minha passagem pela esnoga. Então, me lembrei da casa do Móti, e comentei com o Túlio sobre o que eu vira pela janela. Ele acha que abriram uma nova rota para o contrabando de pedras lá do distrito diamantino, e que o Móti deveria estar sendo usado para avaliar as pedras.

Como as nossas lavras estavam a cada dia trazendo menos ouro, todo mundo procurava novas formas de ganhar o sustento. Eu ponderei que o Móti era entre nós ourives o mais sério e o mais antigo, e que ele não iria se aventurar com contrabandistas baianos.

“O dinheiro faz milagres, rapaz”, filosofou o Túlio. Continuei firme na minha posição, defendo o Móti, e por extensão toda a nossa sofrida classe da ourivesaria. Nós somos muitas vezes consultados para comprarmos isto ou aquilo, e é claro que não pedimos certificados de quitação com a Coroa. E, quando fazemos avaliações, nem sempre somos remunerados por isso.

O nosso trabalho é transformar o ouro em peças de ornamentação, em joias, coroas para as santas, amuletos para os negros. Se querem transformar pepitas em barras, existem algumas casas de fundição escondidas nos quintais por aqui. Não exatamente aquela lá no Morro da Barra, porque esta El-Rey resolveu reativar há alguns anos, sem muita esperança. Mas El-Rey é sábio. Preferiu substituir a renda eventual dos quintos de tudo que se extraísse por um valor fixo anual de cem arrobas para todo o território das Minas. É um absurdo.

O Túlio, que já havia perdido completamente o sono, agora me parecia excitado com a possibilidade de a Vila estar na rota de contrabando de diamantes. Ele, que exercia a função de rábula, gostava de ficar elaborando teses complexas. O seu único problema no exercício de sua atividade tinha nome e sobrenome. Era o doutor José de Góes, Ouvidor-Geral da Comarca do Sabará, unha e carne com o padre Correia. Ambos eram ricos, muito ricos. Um era funcionário da administração do reino e outro era o Vigário-Geral. Formavam uma dupla com múltiplos interesses, assim comentavam. Certamente a riqueza deles não provinha só de suas respectivas funções. Talvez riqueza de família, pensava eu, com benevolência.

Será que eu conto para o Túlio o furto da imagem de São José? Uma coisa tão pequena, tão insignificante, mas que carecia de um homem bom do Sabará como o senhor José Teles para investigar, e um segredo para ser guardado até para os ouvidos do Ouvidor-Geral? Muito estranho, eu continuo achando. Conto ou não conto?

Túlio tirou-me de meus pensamentos, dizendo casualmente: “Já conheceu Mademoiselle Diane?”.

“Quem?”, não consegui disfarçar o meu espanto. Eu conhecia muito bem aquele ar snob do meu amigo. Ele estava louco para me contar aquela novidade. Afastei do pensamento a imagem de São José, persignei-me mentalmente, e quis logo saber quem seria esta “Mademoiselle Diane”, perdida ali na Vila de Nossa Senhora da Conceição.

“Túlio, deixa de entremeios e diz logo quem é esta mulher.”

Foi então que fiquei sabendo, em detalhes, que a francesa Mademoiselle Diane d'Anjour acabara de chegar no Sabará, vindo de Vila Rica, para ser professora de música. Até que enfim alguma coisa relevante aconteceu nesta praça. Perguntei logo ao Túlio, que continuava com aquele ar casual de quem não quer demonstrar muito interesse, como ele teria conhecido esta senhora Diana.

Mademoiselle Diane”, corrigiu-me o Túlio, “é uma moça solteira. Ela faz questão disso. Não quer ser confundida com uma reinol qualquer. Veio acompanhada de uma aia, e está hospedada no Hospício da Terra Santa”.

“Túlio, sem mais delongas, por favor. Já vai tarde a noite. Como conheceu esta senhora, que nem bem acabou de pisar na Vila Real?”

Ele, então, deu um salto e começou a gesticular freneticamente. Tive que acalmá-lo. Não era todo dia que tínhamos uma francesa, solteira, andando pelas ruas, rezando nas Igrejas, cantando talvez no coro do Carmo. Entendia perfeitamente a agitação dele. Eu mesmo nunca conheci ninguém deste país distante chamado França. Queria conhecê-la. Falaria ela a nossa língua? Túlio contou tudo, depois de algumas ameaças da minha parte. Ele foi chamado por frei Francisco, do Hospício da Terra Santa, para regularizar a estadia de Mademoiselle entre nós.

Túlio, além de rábula, também trabalhava no cartório da Câmara. Era preciso fazer alguns papéis e petições ao Senado da Câmara para que ela pudesse oferecer aulas ao povo da Vila. Então, com ajuda da aia, ele fez algumas perguntas, anotou dados (foi assim que ficou sabendo o nome todo dela) e prometeu encaminhar logo os papéis para as assinaturas necessárias. Ela murmurou, segundo ele me disse confidencialmente, um “Merci, Monsieur Tuliô” que chegou a arrepiar os pelos do braço. Ai, meu Deus, até que enfim uma coisa boa nesta terra castigada pela Providência Divina.

Achei melhor esquecer esta francesa e ir me deitar. Despedi-me do Túlio e corri para casa. Ainda não falei dela. Já falei? Eu durmo no quarto que meus pais construíram como um puxado na casa principal, e que chamamos de barracão, para cima da Igreja do Rosário, com uma entradinha independente.

Do ponto onde eu estava conversando com o Túlio, perto da Capela de Santa Rita, até em casa é uma subida e tanto. Cheguei respirando fundo e repassando este dia tão movimentado. Pelo caminho, muita gente me indagava sobre o que havia acontecido lá na Barra, eu tinha que explicar tudo. Notei que o povo estava realmente meio assustado, tenso, e as mulheres estavam nas janelas tagarelando com as vizinhas, coisa incomum aquela hora da noite. Os escravos iam e vinham trazendo mais notícias. Eu não queria saber de mais nada, queria apenas descansar um pouco. Pressentia que muita coisa estava para acontecer ainda em nossa Vila.

Antes de entrar no meu quarto, passei pela copa e comi um pedaço de pão assado sem fermento que minha mãe fazia, especialmente no fim da semana. Costume dos antigos. Os escravos ainda limpavam a cozinha, passei direto e desabei na minha cama. Chega por hoje.


Fui chamado bem cedo, ainda estava escuro, por uma ligeira batida na porta. Alguém deixara um papelucho pregado no portal. Estranhei demais. Levantei-me totalmente alerta, embora parecesse que tinha acabado de adormecer. Nestes dias atuais, estamos sempre preparados para tudo. O papelucho dizia que necessitavam de meus serviços de avaliação, com urgência, lá nas lavras do Arraial de João Velho. Trabalheira, pensei logo.

A Vila já começava a sua agitação, olhei pela janela entreaberta, vi uma fumacinha saindo das cozinhas, era o pequeno almoço sendo preparado. Passavam mulas carregadas de fardos que os comerciantes recebiam ou mandavam para outras Vilas. E vi, perfeitamente bem, um dos homens que ontem confabulavam com o Móti. Era um homem grande, mais para o mulato, baiano possivelmente, ou de origem moura. E, de novo, me bateu aquela curiosidade que ainda haveria de me complicar um dia. O que estaria ele fazendo ali no Rosário, mascando um fumo de rolo, e puxando uma mula com várias caixas.

Foi descendo devagarinho, até onde pude divisar de minha janela, procurando alguma coisa pelo chão. Claro que não perdi tempo, coloquei minha roupa – a mesma de sempre – apanhei minha caixa de ferramentas de avaliação e saí para a viela, sem comer nada. Apurei o passo e ainda consegui ver o forasteiro sumir pela Rua de São Pedro. Tudo indicava que voltava ao Móti. Eu também.

Cortei caminho pelo Beco da Estalagem e cheguei antes dele. O Móti já estava no trabalho, com vela acesa. Pedi licença para entrar. Móti me olhou com aqueles olhos azuis, desviando atenção da bancada, onde estava trabalhando alguma peça de ouro. Assuntei se ele também havia recebido pedido lá dos lados da ponte do João Velho, e ele disse que lá era muito longe para ele. Preferia que trouxessem as peças a serem examinadas ali mesmo, em sua oficina. No máximo, uma vez por ano, se dispunha ir até o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, para participar da festa do Jubileu, que já está virando uma tradição nas Minas, e que atrai muitos peregrinos.

Fiquei ali sentado, distraidamente, esperando o estranho, que já deveria estar chegando, se eu estivesse certo. Estava.

Ao vê-lo, Móti sorriu e disse: “Vai entrando, senhor padre”. Padre? Então o homem era um padre? Seria algum jesuíta disfarçado? Todo mundo sabia que os jesuítas haviam sido expulsos do Reino de Portugal, mas que ainda persistiam atuando nas Minas. Eu fui logo apresentado como sendo a maior promessa da ourivesaria do Sabará. Fiquei contente que o Móti tivesse este conceito de mim, mas eu estava longe de ser um grande ourives. Leva tempo de prática e é preciso ter muito relacionamento pessoal.

O padre Sarmento – José de Mariz Sarmento, foi como ele se apresentou, ao que o Móti acrescentou “um ex-soldado da Companhia de Jesus” – sorriu com interesse, mas demonstrou logo impaciência para tratar do negócio que fora interrompido na noite anterior. Eu já adivinhava. Padre Sarmento não era baiano nem português. Era nascido no Rio de Janeiro, e vivera muito tempo na Vila de Sebolas, região do Caminho Novo. Como o Móti não me dispensou, eu fui ficando. A curiosidade mata, já dizia minha mãe. Padre Sarmento perguntou-nos como era o nome do padre Correia. Eu me adiantei e disse o nome todo: José Correia da Silva. Ele tirou qualquer coisa da algibeira, e pegou uma pena do Móti para anotar. Pensativamente, voltou-se para mim e me perguntou:

“Mas é Corrêa ou Correia?”

O Móti me olhou incrédulo e indagou do padre Sarmento se aquilo fazia alguma diferença.

“Ah, meu caro, faz toda a diferença.”

A minha curiosidade estava aumentando a cada segundo. O que teria o eminente padre Correia a ver com a reunião de ontem? Quase tive que lembrar aos dois de que eu era um irmão do Carmo do Sabará, e como tal, devia lealdade ao nosso padre-comissário. Não foi preciso, porque o padre Sarmento desviou a conversa perguntando ao Móti se era possível fazer um colar de pedras, com um pingente – coisa fina – para presentear uma senhora de Vila Rica, de nome Gabriela, que acabara de chegar da Nova Inglaterra. As pedras seriam diamantes. O Móti fez que entendeu tudo e mostrou ao padre Sarmento vários modelos de pingentes e colares. Eu me desinteressei logo da conversa, porque percebi que não diriam mais nada na minha presença. Pedi licença e me retirei. Tinha muita coisa a fazer.

A minha ida para o Arraial do João Velho precisava ser feita em lombo de burro, e ajudado por um escravo lá de casa. Levava um tempão, embora não fosse tão longe assim. Primeiro, nós íamos margeando o Rio Sabará, passávamos pelo Arraial do João de Souza, daí chegávamos à Igreja Grande, continuávamos às margens do rio, passávamos pelo Arraial da Igreja Velha, depois pelo Arraial do Piolho, até alcançarmos a ponte do João Velho bem lá na frente. São algumas poucas léguas de viagem, por um caminho tortuoso, e eu devia ter paciência. Chegamos lá no fim da tarde, suarentos e empoeirados. De comida, só umas broas de milho que havia colocado no embornal e água fresca recolhida nas nascentes pelo caminho.

A família do senhor Manoel dos Santos já me esperava para o terço e um mingau de fubá. Foi o suficiente para me fazer adormecer, logo depois de uma conversinha que tive com o dono da casa. À mesa, só nos sentamos eu e ele. O resto da família comeu na cozinha. Eu escutava o falatório das meninas, excitadas com a presença de um estranho na casa, elas que viviam trancadas a sete chaves. Da conversa, em voz baixa, entendi que ele havia encontrado um novo veio de ouro, coisa boa, e dali extraído algumas pepitas para que eu examinasse. Segredo absoluto, foi o mínimo que ele me pediu, mordiscando a farta barba. “Amanhã cedo veremos isto, seu Manoel”, e fui dormir.


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